Compreendendo no ato da intervenção, a cidade em sua estrutura de asfalto e cimento como um ambiente hipertextual.  A Companhia Pã de Teatro Pesquisa Produção Artística e Cultural vem desde o ano de 2007, conduzindo suas experimentações e pesquisas estéticas em incursões investigativas pelo campo da antropologia, da filosofia e da política, desenvolvendo uma poética transdisciplinar conectada com termos e códigos propostos pela contemporaneidade.
Esses códigos e termos, éticos, estéticos e políticos, tais como, fragmentação, rizoma e orgiasmo -- o erotismo como adstringente social -- orientaram uma primeira experimentação que culminou com a produção do espetáculo Fragmentos do Corpo.
O desenvolvimento da pesquisa nos conduziu a busca por espaços alternativos na cidade. Nessa circulação, outras questões foram postas: o nomadismo, os fluxos urbanos, a velocidade, a liquidez dos desejos, a fragmentação e sobreposição do tempo, a hipertextualidade e a desterritorialização. Esse último termo nos remete ao pensamento de que o urbano vai além do fenômeno social, econômico e político, ele é também o fenômeno espacial.
A partir do início de 2009 a Companhia Pã começa a formatar, através de leituras e experimentações, o Projeto Cidade Noiada. Um mergulho, tanto estético quanto político, nos fluxos urbanos, tomando a via pública como locus privilegiado para a construção de diálogos com a cidade.
Durante 04 meses de investigação, em busca de uma dramaturgia cênica e textual que nos servisse de interface para esse diálogo, iniciamos a partir de um epicentro -- as ruas do bairro do Benfica em Fortaleza-CE -- uma série de intervenções com uma dramaturgia ainda em construção, aberta a uma negociação com o lugar.
Compreendendo no ato da intervenção, a cidade em sua estrutura de asfalto e cimento como um ambiente hipertextual e socialmente indissociável de sua existência virtual e on-line, buscamos por meio de uma tv on-line ao vivo e com chat, website e redes sociais, estender a interface dramatúrgica às linguagens de internet.
Neste processo, nos deparamos com o paradoxo existente entre o caráter presencial e efêmero do teatro e a internet -- caracterizada pela fragmentação temporal de seus conteúdos mediada por sua interatividade e ampla acessibilidade.
Esta problematização é foco da pesquisa estética de Cidade Noiada sobre a qual nos debruçamos. Tematicamente, A Companhia Pã de Teatro propõe a investigação do fenômeno espacial urbano, a desterritorialização e o nomadismo, em um tempo de projeto de 02 anos, dividindo-se nas seguintes fase:
Leitura e Elaboração das intervenções, visando a construção de uma dramaturgia hipertextual para estabelecer o diálogo com o ambiente da intervenção (o espaço urbano e os passantes e internautas);
Execução de intervenções e debates alternados semanalmente, com transmissão ao vivo em programa de tv on-line e chat, vivenciando a pesquisa e as intervenções em seu aspecto virtual e interativo. Posteriormente, estenderemos as intervenções às redes sociais a partir de sua releitura em linguagem de internet (vídeos, postagens de blog e imagens e etc), construindo um arquivo de vídeos, textos e imagens das intervenções e debates, disponibilizados no site da Companhia Pã de Teatro; Montagem de espetáculo a partir do desenvolvimento de 04 solos: Vadia, com a atriz Luiza Torres; Noiada, com a atriz Edineia Tutti; Na Encruza, com o ator Cícero Teixeira Lopes; Vai ver se estou na lá na esquina, com a atriz Eugênia Siebra. Cada solo abordará um determinado aspecto dos temas propostos. Vadia é a personificação da própria cidade, feminina, instável, ardilosa, desenraizada, errante. Cada cena contém um aspecto específico da cidade: cidade-espetáculo, cidade-prostituta, cidade-(des)memoria, esquina, asfalto, cidade em permanente movimento. A dramaturgia construída de acordo com as descobertas da própria rua, revelando possíveis elementos constituintes da estrutura da cidade. Noiada investiga a população nômade, segmento urbano excluído das estatísticas do estado, desterritorializado, destituído de identidade. Na Encruza debruça-se sobre a liquidez do desejo e a dissolução dos limites de gênero, buscando compreender os processos de construção de novas identidades. Vai ver se estou na lá na esquina se propõe a evidenciar no cotidiano da cidade o lugar propício para gerar novas expectativas de convívio. A cena acontece na rua, na passagem dos que nela transitam, gerando um corte no fluxo indistinto e autômato da cidade. O ato íntimo de depilar-se em plena rua se torna, por isso mesmo, estético e reflexivo quando posto como objeto artístico. O voyeurismo como marca e meio para existir na contemporaneidade sinaliza para o comportamento unidimensional. A reprodutibilidade eficiente do indivíduo é também signo da interdição do livre mercado. O meio escolhido como veículo para a cena -- a imagem, a auto-imagem, a tecno-imagem -- se coaduna com os próprios meios contemporâneos de comunicação e relação inter-pessoal. Fala de excesso, de exibicionismo narcisista e também de solidão.
Cidade Noiada é um projeto de pesquisa e montagem em andamento. Fecha o ano de 2009 em sua quinta intervenção.
Veja os vídeos da 5ª Intervenção:
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