| CCAORRTPAO |
| Verve - performance |
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Por Eugênia Siebra
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Videoperformance
Quem sou? De onde venho? Eu sou o Antonin Artaud.E basta dizê-lo,Como sei dizê-lo,Imediatamente Vereis o meu corpo atuar Voar em estilhaços E em dois mil aspectos notórios Refazer Um novo corpo Onde nunca mais Podereis Esquecer-me. Eu, Antonin Artaud - tradução de Aníbal Fernandes. Apresento-lhes uma experimentação. Corpo, câmera, cartografia. A performance do corpo-trama em ação geo-plástica, numa dança à dois, num trajeto de música e carne, conduzida pelo viés da câmera: A videoperformance. A videoperformance está presente na produção dos artistas brasileiros como Letícia Parente, Paulo Bruscky e Sônia Andrade, só pra citar alguns, desde a década de 1970. À época essas práticas performáticas eram apresentadas em tempo real, construídas no diálogo íntimo entre a linguagem do corpo e a linguagem do vídeo e enquanto durasse a ação. Na atualidade, com a velocidade das informações e o acesso às tecnologias perpassa um novo tempo de construção do corpo - fragmentado, imagético, multifacetado - organismo que interfere no real, espaço-tempo da subjetividade. Na videoperformance a câmera tem função tão importante quanto o corpo e esse conceito permanece inalterado no decorrer das gerações de artistas. A atuação performática contemporânea como meio estético híbrido, onde a música, a dança, o vídeo, a fotografia, a encenação se coadunam num processo de criação ou performação como nomeia Renato Cohen, delineia uma outra prática estética e política de vivenciar o corpo, intermediado pela máquina, como estado de questionamento de suas potencialidades sensíveis. O corpo como acessório vai se consolidando na modernidade à medida que a anatomia deixa de ser um destino para dar espaço a uma matéria-prima a ser modelada, a ser redefinida, enfim a se submeter ao design do momento. O corpo como bio-potência é, cada vez mais, suporte para a manifestação artística. É este corpo contemporâneo que quero refletir. Um corpo no qual Artaud propunha expulsar o divino e a razão aprisionante. Corpo que não seja apenas colagem de órgãos, mas que seja corpo sem órgãos. Corpo-dor que esvazia valores decadentes contemporâneos. Esta verve tem como matéria prima a experimentação em videoperformance roteirizada, concebida e realizada pela autora, intitulado: “CCAORRTPAO” - Uma glossolalia artaudiana a partir do conceito de “corpo sem órgãos – CsO”, tratado no livro Antonin Artaud - O artesão do corpo sem órgãos, de Daniel Lins, no entanto sob livre interpretação. Em espaço abstrato o corpo é captado pela câmera que tece o trajeto, enquanto a autora ataca sua própria pele trazendo à tona o vermelho de suas conexões internas. Escreve carta ao corpo e no corpo, desterritorializa-o em partes que só a cumplicidade da câmera capta. A luz precária foca apenas o pedaço, instiga os orgãos a sangrar e a morrer. Inscreve-se, sentencia o habitus-corpo num estranhamento trágico, ritualístico, levando a um estado de entrega e espera. Escrita-Artaud, plasmas sob o olhar da câmera. O som retorce a imagem e o pensamento. O som é escrito-incômodo. É ressonância em fá na jugular, em fá no coração, em fá nos intestinos e sexo. O vídeo é o corte. É a transubstanciação da faca que grava e testemunha. |
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