Cadeira na Calçada
Cadeiras na Calçada - crônica
Por Karlo Kardozo    Ter, 13 de Julho de 2010 18:21

Um ritual de Chegança.

No dia 06 de março de 2010 a Companhia Pã de Teatro fez uma apresentação de A Menina dos Cabelos de Capim em frente a sua sede na Rua Redenção, Bairro do Benfica. Um ritual de chegança em no seu novo endereço. A vizinhança compareceu colocando as cadeiras na rua e na calçada. Veja a crônica de Karlo Kardozo.

Quando a sombra atravessa a rua e a brisa de fim de tarde brinca na calçada, Dona Aidê põe a cadeira porta à fora e vai tomar a fresca. Por volta das cinco seu olhar se perde em contemplação. Nos seus mais de oitenta, já não busca sabedoria, mas sorrisos e lembranças. A Redenção lhe é família, nação, o mundo. A pequena rua é o universo inteiro e mais a vida toda. Redenção primavera, Redenção eterna.

Quando chegamos cobrou-nos um café. Rito iniciático de aceitação. Demos-lhe arte, teatro, contação. Deu-se por satisfeita e amou-nos e sorriu.

Convidamo-la depois para contar sua história. Tímida, como a menina que chegou com treze anos para morar com a madrinha, não quis falar de fuxicos, flertes, fofocas. Mas aceitou um pedaço de bolo e contou da feira, das muitas tarefas de casa, das costuras. Sua Madrinha era modista de renome. Aidê falou-nos de sua gratidão com a vida e de como o tempo passado, guardado na memória, é tão presente e vivo.

Contamos-lhe sobre de outras paragens e sobre nossa chegada por aqui. Apresentei-lhe mãe, pai, neta, filhos e amigos. Agora somos amigos de infância. Chego como a sombra que atravessa a rua. Brinco com o vento que corre na calçada. E vou-lhe dar um boa noite. – Boa noite Dona Aidê! E ela acena um boa noite cheia de sorriso.

 

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