| Velho Camarada Lau |
| Cadeiras na Calçada - crônica |
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Por Karlo Kardozo
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O Palco, a Rua e o Olho da Câmera
Caminhava pelos inícios dos noventa quando encontrei numa esquina do Theatro o velho cigano Lau. Trazia no bisaco algumas máscaras, uma lona de circo, três ou quatro pantomimas e um punhado de idéias malucas. E eu, que procurava rumo e não prumo, me ajuntei na munganga e saímos por aí em estripulias. Neo-bufões pós-tudo a entremear movimentos pela cidade. E dizíamos ir mais além. Um movimento para mudar as cores da bandeira, inverter hinos e quem sabe derrubar a coroa de reis e rainhas. Durou pouco porém o arrufo. Alguns engradados de cerveja. E mais algumas, em festas inventadas ou invadidas apoteoticamente na madrugada. E já lá ele se foi, como se veio. Lau-Nau, ciganando de cidade em cidade, semeando e se irmanando com outras gentes e lugares. Quase duas décadas se passaram. Marés e luas se alternaram lavando memórias e iluminando lembranças. As cidades estreitaram as calçadas e ampliaram as avenidas. Substituindo o paralelepípedo e o concreto pelo silício. As janelas se fechavam a cada nova tela que se abria e as cadeiras da calçada diante delas se postavam. Conectaram-se distâncias. E o tempo se acumulou sobrepondo-se em pilhas. Tempos de antanho sendo num mesmo tempo do pós-nós-todos, um espraiar amalgamado de todas as eras, sem que nada estivesse verdadeiramente no hoje. E eis que num é que de repente vejo pela minha tela-janela um aceno cigano do velho camarada Lau. Não tinha ouro no dente, mas platina na perna e os cabelos já prateando. Dizia ter perdido as máscaras e a lona, mas guardava no bisaco ainda um punhado de idéias malucas. Acenei-lhe de volta lembrando-lhe as cervejas guardadas. Espólio de alguma festa saqueada e que foram esquecidas na geladeira. Dito a senha, rompeu-se a tela e o que era memória se fez presença. Andava eu, por essa época, entretido com uma vadia. Intervinhamos nos fluxos urbanos, experimentando as tramas da rede, virando latas e copos. Planejávamos rever a vida, desencubar novas crias. Arregimentar noiados para nomadiar entre as tribos da cidade. Desvelávamos esquinas sombrias, casas abandonadas, e impúnhamos outros usos às calçadas estreitas das ruas. Junto aos Pãndegos que integravam nosso bando, desassossegávamos os tempos e os lugares e acumulávamos os despojos em territórios errantes, lugares de tempos breves que logo depois de sidos desaparecem reinventando-se em outras acontecências. Pois foi em meio a esse desprumo que o pirata neocatalão com seu olho mecânico desembarcou novamente por essas paragens. Trouxe apenas meia lembrança daquele tempo para que pudesse redescobrir a outra metade em nossas intermináveis conversas. No outro espaço do seu HD repartido, comprimiam-se mil e uma noites de aventuras e experiências que ele dividia em generosas porções com o bando. Armada a tenda e conectada a rede começamos a tramar takes para a tela. Palco, rua, tela. O corsário pós-dramático, sempre cheio de inquietudes, agora vivia glauberianamente com uma câmera na mão e o bisaco cheio de idéias. E eu como sempre, mais atrás de rumos do que de prumos. Voilá! Estava armado o Set. Foram uns trinta dias divididos em duas tomadas. A primeira em novembro do ano passado. A segunda, rodamos agora. Não sem antes incendiarmos os bares dos arredores. Viramos noites. Atravessamos dias de sol, chuva e ressacas. Mas ao final, a vadia virou diva da tela e o entregador da lanchonete da vizinhança quer o seu autógrafo. No último dia de sua mais recente estada a pequena Redenção amanheceu com ares de Cinelândia. Palco, rua, tela. Cheio de links e saudades a Nave-Lau partiu do cais 85. Mais um curta na passagem. Na esquina do Boteco da esquina o guardador de carros agita sua flanela como um lenço. Abro uma cerveja, acendo um cigarro e vou rever as últimas tomadas desse longa, que é nossa amizade gravada em alta definição. |
Fortaleza 06 de julho de 2010
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